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segunda-feira, janeiro 10, 2005

Mil e Um Mistérios

Meia-noite no relógio de Aguim. Toda a povoação dorme. A derradeira luz, que palpitava através de cortinas brancas em vidraça meio levantada numa casinha alva e decente, agora apagou-se. É a pousada do mestre-escola; mas as cortinas, o prolixo velar, denunciam antes o quarto da sobrinha, que o seu. Ele, mestre Ambrósio, conta cinquenta anos; ela, a Sr.ª Angélica, segundo uns, segundo outros a Sr.ª D. Angélica, só conta dezasseis. Ele mói o seu dia entre rapazes rudes e travessos; ela distrai o seu a costurar diante de lindos romances modernos, emprestados às escondidas pela criada grave de sua madrinha e sempre abertos em cima da almofada de costura; e não os interrompe senão para invejar as flamantes galas dos jornais das modas.

"Mil e Um Mistérios", António Feliciano de Castilho (Início do romance infelizmente inacabado do poeta romântico)

Contribuição de Manuel Correia de Bastos

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