De certo modo, ao olhar pela objectiva da máquina estou a ver esta guerra em diferido, é como se fosse uma testemunha e não um agente. É esse espírito que me trouxe aqui, a este largo onde as crianças do aldeamento jogam à bola e onde costumo sentar-me para me distanciar da realidade.
[...]
Disparo algumas fotos e depois mantenho-me a ver o jogo pelo enquadramento que a objectiva permite e o quadro animado das crianças a jogarem à bola deixa de ser real. Ao fundo mal se vê a capelinha de S. José da minha aldeia. E como diabo nasceram árvores no Largo do Sobreirinho? Juro que ainda agora saí de casa a caminho da escola. Parei aqui só porque faltava um elemento na equipa do Tó.
A minha mãe rega a fiada de sardinheiras que rendilham a vermelho e branco a parede da rua e ajeita um ramito desalinhado como quem compõe uma madeixa rebelde. - Assim? diz ela satisfeita com o resultado do seu gesto carinhoso, e para mim: - Onde bais tu tão cedo? eu, moita, a mudar de conversa - Ó mãe, porque é que não planta antes rosas? e ela escandalizada a olhar para mim como se eu tivesse sido deselegante com uma sua amiga íntima.
[...]

Procuro aqui em Mueda, com o enquadramento da máquina a grande fonte de arco de ferro do Largo da minha terra, onde, anos mais tarde, tanto encostava, às Sextas a carrinha da biblioteca, como às Terças a carrinha do peixe; só que a carrinha do peixe buzinava e a da biblioteca não; mas apenas encontro um amontoado de sucata que há-de ter sido um Hunimog antes de pisar uma mina.
Não sei porque me lembro sempre da minha mãe a regar as sardinheiras quando me vem à cabeça estes jogos de futebol no largo da minha aldeia e a biblioteca itinerante em que o Professor atendia os seus leitores, tão convencido da nossa dedicação que não achava necessário buzinar como o peixeiro - Onde bais co essa gabela de libros? e eu a responder, fugindo à questão novamente, dez anos depois - As rosas cheiram melhor mãe, isso são flores de pobre. - Olha que nos libros do coléijo no pegas tu, retorquia ela melindrada como sempre, com a minha falta de sensibilidade.
[...]
Ver o texto completo aqui
Ver o blog Cacimbo aqui



3 comentários:
Já tinha saudades de um dos seus textos, ou será melhor dizer, retratos da minha aldeia... Continue a fascinar-nos com os seus "regressos ao passado"... é quase como sentar-nos no rebate da porta a ouvir um história do avô ( eu sei q não ´assim tão velho!!!)...
continue.. afinal Aguim não vive só de futebol e dos resultados do nosso ARA! vive também das memórias do passado... já que hoje em dia não se passa, nem se faz nada de "interessante"! ou q seja digno de ser noticiado...
:(
Manuel;
Mais uma vez nos fazes lembrar os bons momentos da nossa aldeia, aldeia onde tambem cresci e adoro. Aquilo que tu viste nesse Largo em Africa e que te fez regressar no tempo e relembrar o nosso Largo do Sobreirinho e sem duvida a "Saudade". E que saudade eu tambem tenho desse tempo em que via a "Quitas" a regar as suas sardinheiras e durante as ferias de Verao a gritar pelo "Manel" pra se levantar da cama que ja eram horas de almocar.
Que "Saudades"
Obrigado mais uma vez por nos recordares estes tempos.
Rui Secio Rodrigues
Helena,
Tenho a certeza que ainda se passa muita coisa interessante em Aguim, só que é preciso deixar que o tempo e a memória transformem aquilo que parece banal, no presente, em algo precioso, no futuro, porque já não volta a acontecer.
Rui,
É bom saber que acompanhas este blog e que te agrada reviver o passado através dos meus posts. De certo modo eu também sou emigrante e se a distância geográfica é menor, a distância temporal, essa, é maior até.
Um abraço para ambos
Enviar um comentário